Acompanhe os capítulos da minha reconstrução e como a resiliência me guia.
Capítulo 01
A Base de Tudo
Em 1989, iniciei trabalhando profissionalmente como programador COBOL e C em uma empresa que processava a contabilidade de diversas outras em Mainframe Burroughs. Pouco tempo depois, os microcomputadores invadiram o mercado e passei a trabalhar com a linguagem CLIPPER com a qual desenvolvi vários sistemas na época.
Capítulo 02
O Preparo
Oito anos depois, a vida me levou aos Estados Unidos, onde trabalhei 13 anos para Universidade do Colorado chegando à ser coordenador de todos os projetos online. Durante esse tempo, concluí um bacharelado em Ciências da Comútação e um mestrado em Sistemas de Informação. Formaturas que mais tarde me valeram muito.
Capítulo 03
O Ciclísmo
Foi nas montanhas rochosas do Colorado, que desenvolvi a paixão pelas Mountain Bikes. Não havia dia ruim. Fizesse frio ou calor, todos os dias havia pedal solitário, até que ganhei uma mini companheira de aventuras em 2005. Minha filha adorava esses passeios malucos cheio de surpresas e liberdade.
Capítulo 04
De Volta ao Brasil
Em 2010, com a invasão da prática de ciclismo, pra minha alegria, logo me integrei a um grupo de malucos, que como eu, levantávamos diariamente as 4:00 da manhã para pedalar cerca de 80km antes de começar o dia! Nessa época também retornei à um segundo hábito saudável: a natação.
Capítulo 05
O Motociclismo
Uma outra atividade que sempre me acompanhou foi o motociclismo. Sempre gostei de me locomover no dia a dia utilizando motos e em 2021 realizei um grande sonho, que era ter uma Bigtrail. Comprei com sacrifício uma Triumph Tiger 1200cc. Um verdadeiro sonho sobre rodas. Nunca imaginei que essa alegria me levaria a tantas dores em tão pouco tempo.
Capítulo 06
O Acidente
Em 6 de maio de 2022, uma câmera de video-monitoramento de uma farmácia capturou quando um carro preto fez uma conversão à esquerda em uma avenida principal (Av. Barão de Studart, em Fortaleza) acertando em cheio minha perna esquerda. Na imagem é possível me ver com as pernas pra cima voando prestes a acertar o solo.
Capítulo 07
Acordando em um pesadelo
Um mês depois do fatídico dia, acordei do coma (tenho uma história sobre o que visitei, mas pra uma outra ocasião). Reconheci o rosto de meu irmão (médico) que me perguntou se eu sabia o que havia acontecido. Eu dise que não e ele me detalhou o acidente. Foi quando percebi que não conseguia mexer meus braços e perguntei se estava ainda anestesiado, pois não sentia nada do pescoço pra baixo. Percebi a agonia no olhar dele e perguntei: Fiquei tetraplégico??
Capítulo 08
Aceitando o inaceitável
O meu maior medo havia se tornado realidade, e eu não estava preparado pra lidar com ele. A agonia era infindável, e eu naquele momento, daria tudo para partir. Como isso não aconteceu, comecei a conversar com Deus todas as noites solitária no hospital, e assim, tentar entender como essas linhas tortas que ele havia escrito para minha vida poderiam dar certo em algum momento. E Ele me respondeu...
Capítulo 09
A Resposta
A Resposta de Deus me veio com o tempo em forma de dor! Para minha alegria, apesar de parecer loucura, eu estava feliz por sentir dores nos ossos da perna esquerda e formigamento nos dedos das mãos. Dali em diante, todos os dias eu era presenteado por alguma coisa nova. Mexer o dedo, o braço e iniciar fisioterapia nos membros superiores foi uma grande vitória.
Capítulo 10
As Contas Chegavam
Antes do acidente, eu trabalhava como autônomo e desenvolvia um sistema de gestão de fazendas de camarões (despesca.com.br). Não havia renda, mas as contas não deixavam de chegar. Eu pagava pensão, aluguel e muitas contas médicas, apesar de ter plano de saúde UNIMED. Minha moto deu perda total e vendi minha bike e meu carro para tentar passar por esse momento, e consegui por um bom tempo, mas um dia cheguei ao fundo do poço. Nesse momento eu percebi que estava completamente só.
Capítulo 11
A vida continua
7 meses depois, finalmente deixei o hospital e minha mãe (90 anos de idade) me recebeu em casa de sorriso e braços abertos. A vida fora do hospital exigia muita dedicação, tive que contratar ajuda para poder sair da cama e visitar o banheiro, ou qualquer outra coisa. As minhas conversas com Deus eram diárias e sempre agradecia a Ele por tudo e aproveitava pra fazer alguma pergunta, que normalmente eram respondidas no dia seguinte. Como eu não conseguia ficar sentado para usar o computador, um dia pedi a Deus que me desse essa graça, pois eu poderia trabalhar... no dia seginte me apareceu uma enfermeira da UNIMED para um check-up e ao perceber minha agonia falou: Ei... vou te ensinar um truque de como utilizar a cama hospitalar como uma poltrona. Nesse momento comprovei mais uma vez que Deus ou algum representante Dele escuta realmente nossas conversas.
Capítulo 12
Sarah Kubitscheck
Uma das minhas maiores esperanças era ser aceito na rede Sarah de reabilitação. A rede Sarah é muito bem conceituada e todo mundo fala maravilhas do que eles fazem por lá. Finalmente recebi a notícia que fui aceito e passei 15 dias internado lá. Tive o sentimento de esperança substituído pelo o da decepção. Nada que eu havia imaginado ocorreu. Eu pensei que iria encontrar equipamentos modernos, técnicas inovadoras e profissionais renomados. A dura verdade foi perceber que eles estavam mais interessados em ensinar a viver como deficiente do que recuperar. Tive aula de como usar a cadeira, de passar pra cama e assisti muitas palestras para nos convencer que o SARAH é o melhor lugar do mundo... só que não. É difícil ver uma esperança desaparecer assim.
Capítulo 13
Judiciário inútil
Já que a Rede Sarah não ajudou muito, tive que procurar uma clínica particular e tentar um tratamento caríssimo. A priori, tentei solicitar pela UNIMED, que alegou uma série de coisas e negou. Mais tarde soube de outras pessoas que conseguiram na justiça que ela pagasse, então também entrei na justiça e o processo se arrasta até hoje. Comecei o traramento pagando com o resto das minhas economias de vida, e acabou tudo. A minha mãe de 90 anos passou a pagar minha UNIMED e despesas. Mas vocês devem perguntar... E o sujeito que provocou o acidente? Nunca pagou nada? -- NUNCA!!! Ele Teve acesso ao meu histórico de multas por velocidade na AMC (autarquia de transito), onde ele trabalha, e alegou que eu estava em alta velocidade e o processo também se arrasta até hoje. Enfim... tenho um processo contra ele por danos físicos e morais, um contra a UNIMED pra pagar meu tratamento e um contra a prefeitura por não ter sinalizado o cruzamento que não poderia nem existir (5 dias depois do acidente eles fecharam o cruzamento). Todoso os processos estão em passos de tartaruga emborcada.
Capítulo 14
Preconceito
Assim que consegui voltar a usar o computador, comecei a passar o dia terminando meus projetos que haviam parado, escrevendo meus pensamentos e procurando emprego. Eu achei que seria fácil, pois com as qualificações que tenho, quem não contrataria? Mais uma lição aprendida. Quando a gente não é deficiente, a gente nunca se põe no lugar daqueles que são. Eu mesmo nunca me importei se havia ou não preconceito contra deficientes, mas o fato é: EXISTE! Bati em muitas portas em vão. Bom, como continuava batendo papo com Deus todas as noites antes de dormir, pedi a ele que me mostrasse um ca minho. E ele mostrou...
Capítulo 15
OS Concursos Públicos
No dia seguinte, como de costume, recebi a resposta do pedido da noite anterior. Uma amiga que mora em outro estado me contactou, como sempre fazia desde o início, mas desta vez pra me pedir ajuda: pediu-me pra ensiná-la matemática pra concurso, pois sabia que era desenrolado com números. Prontamente aceitei e marcamos as aulas remotas. No final da 1ª aula ela disse: "Você deveria fazer concurso... você passa!". Ora, de repente me clareou na cabeça que realmente seria uma solução pro meu desemprego. Pesquisei por concursos e achei dois grandes que me interessaram: Serpro e Dataprev, ambos federais. O Serpro contrataria muitas pessoas da minha área e o Dataprev UMA. Me inscrevi nos dois, e até teve gente dizendo que não deveria ter me inscrito no DATAPREV por só ter uma vaga, que eu prontamente respondia: "Mas eu só quero uma mesmo!". O resultado foi que passei muito bem posicionado no Serpro e também consegui a ÚNICA da Dataprev e nem utilizei das vagas destinadas a PCD. Acredito que teve dedo do meu "Amigo" noturno.
Capítulo 16
O SERPRO
Demorou um pouco, mas finalmente saiu o resultado do concurso e fui chamado imediatamente, assumi o cargo de Analista de Sistemas do SERPRO e meses depois fui chamado pelo DATAPREV, mas já havia decidido ficar no SERPRO. A boa notícia é que estava empregado! Mais uma vez, agradeci a Deus por tudo e que agora poderia aliviar um pouco o peso das costas da minha mãe.
Capítulo 17
As Vitórias
Minha recuperação continua, mas é lenta. Sempre pesquisei muito sobre tudo que há de moderno no mundo para mim e tenho a certeza que se tivesse dinheiro (muito) disponível, eu já estaria andando, pois existem muitas ferramentas e tratamentos bons, mas muito caros. Dentro das minhas possibilidades, vou fazendo o que posso. Comecei a descer pra piscina do prédio da minha mãe e me emocionei ao ficar em pé, mesmo que por poucos segundos. Sinto muitas dores no joelho esquerdo, e já me foi notificado que precisará de cirurgia pois ele foi destruído na pancada. Existem umas órteses alemãs (C-BRACE) que me ajudariam muito, mas custam cerca de $50 mil dólares cada uma. Isso me fez entender que meu camkinho será o mais longo mesmo.
Capítulo 18
A Resiliência
Eu tenho certeza que o segredo da recuperação está no acreditar que vamos conseguir e dar o melhor de nós mesmos para isso. Eu voltei à clínica de fisioterapia e comecei a fazer 2 sessões por semana e os resultados foram aparecendo. No dia que consegui dar 3 pedaladas numa bicicleta ergométrica foi outra vitória e claro que enviei essa foto pra minha velha equipe de pedal dizendo: Estou voltando!!! Mantive essas terapias por mais um tempo até acabar o dinheiro novamente. É triste constatar que o plano de saúde que pagamos a vida inteira, nos falha no dia que realmente precisamos. Se alguém que está lendo isso tiver força no mundo jurídico... por favor... lembre-se de mim.
Capítulo 19
O Amor
Já havia se passado três longos anos desde o meu acidente, e chegara novamente meu aniversário. Quando algo extremamente inesperado aconteceu. Eu deveria estar preparado, pois esse era um pedido pendente que eu constantemente fazia ao meu Amigo de fim de noite. Uma grande amiga de 35 anos atrás, quando eu ainda era um moço e ela adolescente me ligou. Me falou que acompanhou toda a minha história e queria me ver. Obviamente, que disse: Não!!, eu não queria que ela me visse desse jeito, acho que eu mesmo tenho preconceitos, sabe? mas ela insisitiu e eu cedi. Ela havia sido uma pretendente na época que realmente mexeu comigo, mas na época eramos novos demais e nunca tivemos nada além de uns beijinhos. No dia seguinte ela me apareceu, linda como sempre, e eu esqueci até de chorar de emoção. Sentou-se ao meu lado e conversamos muito. Dias depois decidimos que poderíamos resgatar um amor do passado, nos declaramos e decidimos casar! Quando escrevi esse texto ao lado.
Capítulo 20
A nova vida
Eu havia esquecido como é gratificante ter uma pessoa que se importa com a gente ao lado e como é difícil caminhar sozinho. Alugamos um apartamento pequeno e nos mudamos, o prédio tem uma piscina de 25m e voltei a nadar e ficar em pé na piscina está ficando mais fácil. A memória muscular é algo surpreendente. Meus anos de natação ajudaram muito nesse momento, e mesmo sem a ajuda das pernas, consigo nadar 1000m direto, acreditem-me, não é pra qualquer um não.
Capítulo 21
O Novo Horizonte
Em breve estarei completando 4 anos de caminhada e aprendizagem. Eu ja tive 3 cadeiras de rodas normais e 4 de banho. Essas cadeiras brasileiras são péssimas. Já escrevi pras fábricas, já reclamei, mas não adianta. Importar cadeiras boas custa muito caro. É inacreditável saber que o governo cobra quase 60% do valor de uma cadeira de rodas em impostos. Chega a ser crueldade. A foto ao lado é da haste de uma cadeira de banho que comprei, que quebrou no terceiro dia de uso, ainda com plástico nas rodas. Então pela primeira vez, decidi pedir ajuda a pessoas que não conheço, pois as que conheço se afastaram todas de mim. Então resolvi criar esse site, contar minha história e pedir ajuda pra comprar dois produtos que me ajudariam muito e eu não tenho como comprar soziho.
E O QUE EU ACHO DA
Polilaminina
Esse assunto é meio polêmico, mas tenho que falar pois diariamente alguém me lembra que ela existe.
A minha opinião é de uma pessoa que já trabalhou em Universidade que realmente conduz pesquisas clínicas sérias e que viveu dentro desse mundo.
Eu adoraria que fosse verdade, mas infelizmente, não acredito que a Polilaminina tenha ajudado ninguém até agora. Nenhuma pesquisa é feita em uma amostra de 8 pessoas.
Acho, inclusive, uma tremenda covardia o que a mídia faz promovendo esse assunto e acendendo a esperança de milhões de pessoas que sofrem com deficiência física ou convivem com alguém que sofre.
Mas aí alguém diz: Mas tem um rapaz que voltou a andar!! Sim, eu sei, mas lembre-se que cerca de 40% de pessoas com lesão medular apresentam recuperação naturalmente e algumas até recuperam 100%. Eu sou uma delas.
Temo que assim como a pírula do câncer, que apareceu uns anos atrás e era mentira, acabe sendo adotada pelo SUS e bilhões sejam destinados a distribuição de uma droga que nunca passou nem da fase 1 de testes.
Seria muito mais humano, se o Brasil removesse completamente os impostos que incidem em equipamentos importados para deficientes.